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Maracujá

Maracujá: para que serve o chá da folha, como preparar e quem não deve tomar

Por Fabiano Carvalho
Atualizado em 30 de julho de 2026 · 12 min de leitura

Maracujá

Onze da noite, dia pesado, e alguém em casa abre a geladeira e serve um copo de suco de maracujá. “Toma esse aqui que dá sono.” Você toma, vai deitar e não acontece nada de diferente. Nem naquela noite, nem na semana em que você insistiu.

Não era falta de fé, e não era o maracujá errado. A planta que a tradição brasileira usa para acalmar é o maracujazeiro, mas a parte usada é a folha, em chá — não a fruta. O suco é alimento: vitamina C, fibra, potássio. O chá da folha é outra coisa, feita com outra parte da mesma planta, e é dele que este texto trata.

É a confusão mais bem instalada da fitoterapia brasileira, e ela existe porque as duas coisas dividem o nome do supermercado.

Aqui o assunto é a folha, não a fruta

O maracujazeiro é uma trepadeira. Dá a flor complicada de gavinha e filamentos roxos, e dá o fruto que vai para o liquidificador. Quem entra numa loja de produtos naturais e pede maracujá para chá não recebe fruta nem polpa: recebe folha seca picada, verde-escura, quebradiça, muitas vezes com o nome “passiflora” no saquinho em vez de “maracujá”.

É essa folha que aparece nos livros de plantas medicinais, é ela que tem monografia na Farmacopeia Brasileira e é ela que o Formulário de Fitoterápicos descreve como infuso. A fruta nunca entrou nessa conversa.

E antes de seguir, há uma segunda separação a fazer — porque “maracujá” também não é uma planta só.

O maracujá-azedo (Passiflora edulis)

É o do mercado, o amarelo e o roxo, o da fruta que se come e do suco de caixinha. É também a espécie mais provável de estar no quintal de quem colhe a própria folha, e por isso a mais usada de fato no uso doméstico brasileiro. Tem estudo químico e uso etnobotânico bem documentado como calmante.

O maracujá-doce (Passiflora alata)

Fruta mais alaranjada, casca mais grossa, polpa doce que não precisa de açúcar. É a espécie oficial da fitoterapia brasileira: a droga vegetal descrita é a folha seca, com teor mínimo de flavonoides totais expressos em apigenina, e é dela que trata a monografia da Farmacopeia. Se você viu “Passiflora alata” num rótulo de chá, é isso.

O maracujá-selvagem (Passiflora incarnata)

Aqui está a sutileza que muda a leitura de tudo o que você já leu sobre o assunto. Essa espécie é norte-americana, quase não aparece como fruta no Brasil — e é a mais estudada do gênero no mundo. Praticamente todos os ensaios clínicos com Passiflora para ansiedade foram feitos com extrato dela, e é ela que está no comprimido e na tintura de farmácia.

O problema prático

Folha seca picada não denuncia a espécie. Não existe teste de cozinha que resolva isso — não é como o boldo, em que a textura da folha entrega qual é. Aqui o critério é o rótulo, e ele frequentemente diz só “passiflora”.

Isso importa por um motivo específico e pouco dito: a evidência clínica está concentrada na incarnata, o uso doméstico brasileiro está concentrado na edulis, e a monografia oficial fala da alata. As três são parentes próximas e compartilham a química principal, mas tratar as três como intercambiáveis é uma suposição, não um dado.

Para que a tradição usa

O uso popular do chá de folha de maracujá é estreito e antigo: agitação, nervosismo e sono que não vem. É o chá da véspera de prova, da semana tensa, da cabeça que não desliga depois do jantar.

Aparece também associado a tensão muscular de nervoso, a palpitação sem causa cardíaca e, em algumas regiões, a febre e a inflamação de pele em uso externo — usos secundários e bem menos documentados.

Sempre à noite ou no fim da tarde. Não é o chá da garrafa térmica do dia inteiro nem substituto do café.

O sabor é herbáceo e levemente amargo, sem a doçura que o nome sugere. Quem espera gosto de fruta se decepciona na primeira xícara — é folha, e tem gosto de folha.

Vale situar onde ele fica entre as calmantes, porque essa é a dúvida real de quem chegou aqui comparando. Camomila e melissa são as mais leves e as mais toleradas. O maracujá fica um degrau acima, junto com a valeriana. E o mulungu é mais pesado que os quatro — o que a tradição descreve dele é afrouxamento do corpo, não desaceleração de fim de tarde.

Na prática, isso faz do maracujá o meio de campo: mais que camomila, menos que casca de mulungu. É onde a maioria das pessoas deveria começar, e é onde a maioria já começa sem saber.

O que os estudos sustentam — e o que não sustentam

Esta é a parte em que quase todo site sobre plantas escorrega, então vamos separar as duas coisas.

O que existe. A química da folha é conhecida: flavonoides C-glicosídeos — vitexina, isovitexina, apigenina e parentes — em quantidade suficiente para servir de critério de qualidade oficial, mais pequenas quantidades de alcaloides indólicos como a harmana. A hipótese de mecanismo mais aceita é ação sobre o sistema GABAérgico, que é o mesmo terreno em que trabalham os calmantes de farmácia. Ou seja: existe explicação plausível, não só fama.

E existe evidência em gente, o que é raro em planta brasileira. Ensaios clínicos com extrato de Passiflora incarnata compararam a planta com benzodiazepínicos em ansiedade leve a moderada: um deles, randomizado e de quatro semanas, colocou o extrato contra o oxazepam; outro comparou a Passiflora ao midazolam em pacientes que iam extrair dente. Nos dois, o extrato reduziu ansiedade de forma comparável ao medicamento.

O que não existe. Antes de você guardar a frase acima como conclusão, os limites dela. Esses estudos são pequenos — o do oxazepam tinha 36 participantes —, foram feitos com extrato padronizado, não com chá de folha, e com a espécie incarnata, não com a folha do maracujá do quintal. Não há ensaio grande, não há acompanhamento de uso prolongado, e não há nada que tenha testado a infusão caseira contra tratamento.

Traduzindo para a vida real: para a noite agitada e ocasional, o uso tradicional é longo e o mecanismo é plausível. Para tratar transtorno de ansiedade ou insônia crônica, o chá não dá conta — e não substitui o tratamento de quem já tem diagnóstico.

A fama do maracujá

Três frases que circulam sobre essa planta merecem resposta direta.

“Suco de maracujá dá sono.” Não é o que os dados mostram. Os compostos que sustentam o uso calmante estão concentrados na folha, e nenhum estudo demonstrou efeito relevante de sonolência em quem bebe o suco da polpa. O que muita gente sente depois do copo à noite tem explicações mais simples: é um líquido morno-frio tomado num momento de descanso, no fim de uma refeição, com a luz baixa. A cena ajuda; a fruta não é o ingrediente ativo dela.

“Se é natural, dá para tomar junto com o calmante da farmácia.” É justamente o contrário. A combinação de maior risco do maracujá é com outros depressores do sistema nervoso — benzodiazepínico, indutor de sono, barbitúrico, antialérgico que dá sono, álcool. O efeito não se anula, ele soma. Sonolência excessiva no dia seguinte e tontura ao levantar são a consequência esperada, não azar.

“Maracujá é o calmante fraquinho, dá até para criança.” As duas metades da frase estão erradas. A folha tem sonolência como efeito esperado o bastante para que a orientação seja não dirigir depois, e as orientações oficiais brasileiras reservam o chá para acima de 12 anos. Além disso há um cuidado que quase ninguém associa a chá: a interação com anticoagulante, que aparece adiante e é o eixo de risco menos divulgado desta planta.

Como se prepara

Folha e flor entregam o que têm com água fervente por cima. Isso torna o maracujá mais simples de preparar do que casca ou raiz, que precisam de fervura.

O preparo tradicional é a infusão: algo em torno de uma colher de sopa de folha seca picada para uma xícara grande, água fervente por cima, tampa em cima da xícara por cerca de cinco minutos, e coar. A tampa não é capricho — parte do que interessa é volátil e vai embora com o vapor. O chá sai esverdeado e amargo de leve.

Uma observação que os materiais oficiais fazem e a internet não: o infuso é preparado com a planta seca. Folha fresca colhida no quintal e jogada na água não é o mesmo preparo, e a secagem é o que padroniza minimamente o que existe na folha.

Três limites que valem mais do que a proporção:

  • É chá de noite. O uso tradicional é no fim da tarde ou perto de dormir. Tomar durante o dia para “ficar calmo” no trabalho é pedir sonolência na hora errada. Não dirija nem opere máquina depois.
  • É uso pontual, não crônico. Alguns dias na fase tensa, não hábito permanente. Ninguém estudou uso prolongado do chá em gente, e ausência de estudo não é aval.
  • Cápsula e tintura não são “o chá em outra embalagem”. Extrato padronizado tem concentração de outra ordem de grandeza, costuma ser de outra espécie e segue outra regra. Se você comprou o produto de farmácia, siga o que diz o fabricante e não some com o chá.

Quem não deve tomar

Esta é a seção mais importante da página, e a que a maioria dos sites deixa para o rodapé.

Quem usa remédio para ansiedade, depressão ou sono. Benzodiazepínicos, indutores de sono, barbitúricos, antidepressivos — inclusive inibidores da monoaminoxidase, por causa dos alcaloides da folha. O motivo é a soma de sedação, e ela é real o bastante para não se testar sozinho. Não é proibição absoluta: é caso de perguntar antes a quem prescreveu.

Quem toma anticoagulante ou antiagregante plaquetário. Este é o cuidado específico do maracujá, e o menos divulgado. A folha contém cumarinas, e as orientações oficiais pedem cautela na associação com varfarina, heparina, AAS, clopidogrel e anti-inflamatórios como ibuprofeno e naproxeno — pelo risco de potencializar o efeito anticoagulante e favorecer sangramento. Quem faz controle de INR tem um exame para acompanhar isso; incluir um chá diário sem avisar quem acompanha é justamente o que atrapalha a leitura desse exame.

Grávidas. Contraindicado. A folha tem alcaloides indólicos — harmana, harmina e derivados — e há descrição de aumento de contração uterina. Na amamentação, mesma orientação: não há dado de segurança, e a recomendação é evitar.

Crianças abaixo de 12 anos. É o limite que os materiais brasileiros usam. Não há estudo de segurança que sustente o uso, e chá calmante não é recurso de sono infantil.

Quem vai passar por cirurgia. A orientação usual é suspender fitoterápicos cerca de duas semanas antes de procedimento com anestesia, e aqui há dois motivos somados em vez de um: a sedação, que interage com a anestesia, e as cumarinas, que mexem em sangramento. Avise a equipe de tudo o que você toma, inclusive chá — quase ninguém pergunta, e isso conta.

Idosos, com cautela redobrada. Sedação, tontura e queda formam o trio que mais derruba gente em casa, e o idoso costuma ser também quem usa anticoagulante e indutor de sono. Se for usar, use com alguém sabendo.

Quem já sentiu reação a Passiflora. Há relatos de reação de hipersensibilidade à planta — pele, coceira, mal-estar. Não é comum, mas quem já teve não deve repetir.

Quem toma qualquer medicação de uso contínuo. Chá é química também. Uma pergunta ao médico ou ao farmacêutico resolve em trinta segundos o que a internet não resolve em uma hora.

E o sinal para parar, valendo para todo mundo: sonolência que atrapalha o dia seguinte, tontura ao levantar, confusão, batimento irregular, ou qualquer sangramento fora do comum — gengiva, nariz, mancha na pele sem pancada. Nada disso é “o chá fazendo efeito”.

Está na RENISUS?

Sim, e de um jeito que vale ler com atenção. O maracujá é uma das 71 espécies da RENISUS, a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS — a lista que o Ministério da Saúde publicou elegendo prioridades de estudo e possível oferta na rede pública.

O detalhe é que a lista não escolheu uma espécie. A entrada é Passiflora spp., com P. alata, P. edulis e P. incarnata nomeadas — reconhecendo de saída que o nome popular cobre mais de uma planta e que as três interessam. Na prática isso é uma boa notícia para quem usa a folha do maracujá comum: ela está dentro. Mas a lista não afirma que as três são equivalentes, e a evidência clínica continua concentrada em uma delas.

E vale entender o que essa credencial significa, porque muito site a usa torta: estar na RENISUS não é atestado de eficácia comprovada nem de segurança irrestrita. É a declaração de que a planta tem uso relevante o bastante no país para merecer pesquisa e cadeia produtiva organizada. É uma boa credencial — de interesse público, não de resultado clínico.

Resumindo

Maracujá calmante é folha em infusão, não fruta em copo. É uma das poucas plantas brasileiras com ensaio clínico em gente por trás, e mesmo assim os limites são estreitos: estudos pequenos, feitos com extrato padronizado de uma espécie que não é a do seu quintal. Serve para a noite agitada e ocasional, à noite, por poucos dias.

E os dois cuidados que importam mais que todos os outros: se você toma calmante ou remédio para dormir, este é um chá para conversar antes; se você toma anticoagulante, é um chá para não incluir sem avisar quem acompanha o seu exame. Nada aqui substitui a orientação de quem cuida de você — e se as noites agitadas viraram regra, o que precisa de atenção não é a xícara das onze, é o que vem antes dela.

Perguntas frequentes

O maracujá que eu como serve para dar sono?

Não é dele que se fala quando se fala em maracujá calmante. A parte que a tradição usa e que os estudos investigaram é a folha do maracujazeiro, preparada em chá. A polpa e o suco são alimento: têm vitamina C, fibra e potássio, e nenhum estudo mostrou efeito calmante relevante em quem bebe o suco. São duas coisas diferentes da mesma planta.

Chá de folha de maracujá dá sono?

A tradição usa exatamente para isso, e o que se descreve é mais afrouxamento da agitação do que sono pesado. Não age em minutos e não é comparável a um indutor de sono de farmácia. Sonolência é o efeito esperado e também é o motivo de não dirigir depois.

Pode tomar chá de folha de maracujá todo dia?

O uso tradicional é pontual e à noite — a fase tensa, a semana ruim —, não um hábito permanente. Não existe estudo que tenha acompanhado uso diário prolongado do chá caseiro, então não há base para dizer que tomar por meses é seguro.

Chá de maracujá pode junto com remédio para dormir ou para ansiedade?

Essa é a combinação de maior cuidado. Quem toma benzodiazepínico, indutor de sono, antidepressivo ou antialérgico que dá sono corre risco de somar sedação, e o resultado é sonolência excessiva, tontura e queda. Álcool entra na mesma conta. Se você usa qualquer um deles, converse com o médico ou farmacêutico antes.

Chá de folha de maracujá interfere em anticoagulante?

É um cuidado pouco divulgado e real. A espécie tem cumarinas, e as orientações oficiais pedem cautela para quem usa varfarina, heparina, AAS, clopidogrel ou anti-inflamatório como ibuprofeno e naproxeno, pelo risco teórico de aumentar o efeito anticoagulante. Quem faz controle de INR não deve incluir o chá sem avisar quem acompanha.

Chá de folha de maracujá pode na gravidez?

Não. É contraindicado na gestação: a folha contém alcaloides indólicos como a harmana e a harmina, e há descrição de aumento de contração uterina. Na amamentação a orientação também é evitar, por falta de dado de segurança.

Criança pode tomar chá de folha de maracujá?

A orientação padrão dos materiais oficiais brasileiros é reservar o chá para quem tem mais de 12 anos. Abaixo disso não há estudo de segurança que sustente o uso, e a quantidade que é pequena para um adulto não é pequena para uma criança. Dar chá calmante para criança dormir não é uso apoiado por nada.

A passiflora da farmácia é a mesma coisa que o chá da folha?

Não. O comprimido ou a tintura de farmácia costuma ser extrato padronizado de *Passiflora incarnata*, com concentração de outra ordem de grandeza e teor de flavonoides controlado. O chá de folha seca de quintal é outra espécie e outra dose. Foi com o extrato padronizado que os ensaios clínicos foram feitos — o resultado deles não se transfere automaticamente para a xícara em casa.

Este conteúdo é informativo e fala sobre alívio e conforto, não sobre cura. Cada caso é único — se a dor persistir ou piorar, procure um profissional de saúde.