Mastruz com leite: para que serve, os riscos documentados e por que não ensinamos o preparo

O liquidificador, um punhado de folhas verdes lavadas na hora, um copo de leite, e o remédio que atravessou gerações: mastruz com leite para a tosse que não larga, para a gripe, para o chiado no peito. Talvez tenha sido sua avó, talvez uma vizinha, talvez o comentário embaixo de um vídeo. E se você digitou “mastruz com leite para que serve” esperando a receita — a proporção, quantas folhas, quantas vezes ao dia —, é melhor saber logo de cara: este é um dos artigos deste blog que não ensina a preparar.
Não é por falta de tradição. A tradição existe, é forte e é brasileira. É por um motivo mais duro: entre a quantidade que a tradição usa e a quantidade que já matou criança em caso documentado, a distância nesta planta é curta demais para uma receita de internet ser responsável.
Existe mais de um nome — e um deles é outra planta
A primeira confusão é fácil de resolver: mastruz, mentruz e erva-de-santa-maria são nomes populares da mesma planta em regiões diferentes do Brasil. É Dysphania ambrosioides, que a literatura mais antiga chama de Chenopodium ambrosioides — o nome científico mudou de gênero, a planta é a mesma. No Nordeste ela é mastruz; no Sul e Sudeste, erva-de-santa-maria. No México, onde também é comida, chama-se epazote.
Reconhece-se pelo cheiro forte, penetrante, meio de gasolina e meio de erva amarga, que fica na mão quando você amassa a folha. É esse cheiro que denuncia o óleo essencial — e é o óleo essencial que carrega o problema deste artigo.
A segunda confusão merece mais cuidado: “mastruço”, com O no fim, nem sempre é a mesma planta. Em algumas regiões o nome é aplicado a espécies do gênero Lepidium, plantas de outra família botânica, com outro perfil químico. Se alguém indicou “mastruço” e não “mastruz”, vale conferir o nome científico antes de assumir que se trata da planta deste artigo — a semelhança está no nome, não na composição.
Por que o povo usa
Dois usos tradicionais aparecem com força, e é importante nomear os dois sem incentivar nenhum.
O primeiro é o respiratório: as folhas batidas no liquidificador com leite, tomadas para tosse, gripe, bronquite e asma. É o preparo mais reconhecível da planta no Brasil — o “mastruz com leite” que virou expressão. Também aparece o chá simples das folhas, e a mistura com mel para amenizar o amargor.
O segundo é o vermífugo: o chá dado para “botar verme para fora”, uso antigo, muito ligado a criança em idade escolar. Esse uso não é folclore brasileiro isolado — é a razão histórica pela qual a planta ficou famosa no mundo inteiro. O composto que carrega o efeito antiparasitário chegou a ser extraído e usado como medicamento contra ancilostomíase e ascaridíase na primeira metade do século XX.
E é exatamente aí que a história vira.
O que a ciência mostra sobre o risco
O que existe. O óleo essencial do mastruz é rico em ascaridol, um monoterpeno da classe dos peróxidos — em óleo de quenopódio comercial, o ascaridol já foi medido como o componente majoritário, chegando a mais da metade da composição. É ele que paralisa o verme intestinal, e é ele que responde pela toxicidade.
O mecanismo é conhecido em linhas gerais: por ser um peróxido, o ascaridol é instável e se decompõe gerando radicais livres, numa reação que a pesquisa mostra ser dependente de ferro disponível no tecido. Esses radicais atacam a mitocôndria — a usina de energia da célula. Estudos em mitocôndrias de fígado de mamífero mostram que o ascaridol e outros componentes do óleo prejudicam a respiração celular. Não por acaso, os órgãos que mais aparecem nos casos de intoxicação são justamente os de metabolismo intenso: fígado, rim e sistema nervoso.
Os sinais descritos na literatura toxicológica formam uma escala. No começo, dor de cabeça, tontura, náusea. Depois, vômito às vezes com sangue, diarreia intensa, formigamento nas extremidades, surdez temporária, alterações visuais. Nos quadros graves: convulsão, lesão hepática e renal, depressão do sistema nervoso central, parada cardiorrespiratória.
Sobre o óleo essencial puro, o dado é explícito: relata-se que uma dose oral única de 5 ml foi letal em adulto, e é por isso que o uso humano do óleo de quenopódio foi abandonado pela medicina. Cinco mililitros é uma colher de chá.
E o caso que mais importa aqui não envolveu óleo essencial. Um relato de caso publicado em 2024 descreve uma menina de quatro anos que recebeu a planta em infusão caseira — quatro xícaras por via oral em menos de 24 horas, mais aplicação na pele, para baixar febre. Os sintomas começaram cerca de quatro horas depois da ingestão: sonolência, alteração de consciência, vômito, diarreia profusa. Evoluiu para falência de múltiplos órgãos, com lesão do fígado, insuficiência renal aguda e distúrbio grave dos sais do sangue. A criança morreu. O mesmo trabalho cita outro caso fatal, de um bebê de seis meses, por encefalopatia tóxica, e dados nacionais em que essa espécie responde por uma fatia relevante das mortes por planta medicinal.
O que não existe. Não há estudo clínico que estabeleça uma dose segura de mastruz para uso oral em humanos — nem para tosse, nem como vermífugo, nem para adulto, muito menos para criança. E há um agravante técnico que torna a conta impossível de fazer em casa: a concentração de ascaridol varia enormemente de planta para planta. O quimiotipo depende de região, solo, época da colheita e parte usada. No caso fatal da menina de quatro anos, a análise do material mostrou ascaridol em torno de 3,5% do óleo; em óleo de quenopódio comercial de outra procedência, o mesmo composto passa de 50%. É a mesma espécie, com uma diferença de mais de dez vezes na potência.
Ou seja: mesmo que existisse uma proporção segura publicada, ela não valeria para o pé de mastruz do seu quintal, porque ninguém sabe quanto de ascaridol tem aquela folha específica.
A fama de “é natural, e criança sempre tomou”
Três frases circulam por aí e merecem resposta direta, porque são exatamente o raciocínio que aparece nos casos de intoxicação.
“É natural, e criança sempre tomou — nunca aconteceu nada.” A primeira parte é verdade e não protege ninguém: o ascaridol é natural, produzido pela própria planta como defesa química contra ser comida. “Natural” descreve a origem, não o efeito no corpo. A segunda parte é o viés mais comum em remédio caseiro — a gente conhece os casos em que não aconteceu nada, e não conhece os que terminaram na emergência. Criança pequena não é adulto em miniatura: metaboliza diferente, tem menos reserva e chega mais rápido à dose tóxica, e é justamente o grupo que aparece nos casos fatais documentados.
“Com leite fica fraco, o leite corta o efeito.” Não é assim que funciona. O leite muda gosto e textura, e dilui um pouco — mas não neutraliza o composto nem cria uma margem de segurança. Na prática, há um efeito inverso e pouco notado: como o leite disfarça o amargor forte da folha, o batido costuma levar mais folha do que alguém aguentaria num chá. O amargor é um freio natural que o preparo com leite remove.
“Se é bom para verme, um pouco a mais limpa melhor.” É o raciocínio mais perigoso de todos nesta planta específica. O efeito antiparasitário e o efeito tóxico vêm do mesmo composto — não são duas coisas diferentes que se possa separar aumentando a dose. Aumentar a quantidade não intensifica só a parte útil; intensifica tudo junto. E vale lembrar um detalhe da literatura antiga: o óleo paralisava o verme, mas não o matava — exigia um purgante em seguida. Não era um remédio simples nem naquela época, e o próprio uso médico foi abandonado por causa das intoxicações.
Por que a gente não ensina a preparar
Esta é a seção mais importante da página, e o motivo de este artigo não ter a seção de preparo que as outras plantas deste blog têm.
Não existe, na literatura disponível, uma quantidade de folha de mastruz — em chá, em batido com leite, em qualquer preparo — estabelecida como eficaz e claramente abaixo da quantidade associada a intoxicação. O que existe são relatos de caso graves e a constatação de que a potência da planta varia demais entre um pé e outro. Publicar uma proporção e uma frequência nessas condições seria dar uma instrução que a ciência disponível não sustenta.
O peso maior é o público desta planta. Se o mastruz fosse usado só por adulto saudável, em dose única, o cálculo seria outro. Mas o uso tradicional que a tradição consagrou é em criança pequena, repetido ao longo de dias, para tosse ou para verme — que é precisamente a combinação de fatores presente nos casos fatais documentados: paciente pequeno, doses repetidas, preparo caseiro sem medida.
Duas contraindicações merecem estar escritas com todas as letras, ainda que este blog não ensine o preparo, porque muita gente vai usar de qualquer jeito: gestantes e lactantes não devem usar mastruz, e quem tem doença de fígado ou rim tem motivo extra para ficar longe, já que são justamente os órgãos que aparecem lesados nos quadros de intoxicação.
Para quem procura alívio de tosse, gripe ou bronquite leve, existe alternativa já coberta neste blog com risco bem menor: o assa-peixe tem tradição de uso exatamente para isso, com um perfil de segurança incomparavelmente mais tranquilo — o cuidado principal lá é de identificação da espécie, não de toxicidade.
E se o assunto é verme: verminose tem diagnóstico de exame e tratamento de farmácia, barato, de dose única na maioria dos casos, e disponível na rede pública. É um dos poucos problemas de saúde em que a alternativa moderna é mais simples, mais barata e muito mais segura que o remédio caseiro.
Está na RENISUS?
Sim. O mastruz (Dysphania ambrosioides, listado como Chenopodium ambrosioides) é uma das 71 espécies da RENISUS, a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS — a lista que o Ministério da Saúde publicou elegendo prioridades de estudo e possível oferta na rede pública.
E aqui vale entender o que essa credencial significa com mais cuidado do que nas outras plantas deste blog: estar na RENISUS não é atestado de eficácia comprovada nem de segurança irrestrita. É a declaração de que a planta tem uso relevante o bastante no país para merecer pesquisa organizada. Para uma planta com toxicidade documentada como esta, essa prioridade existe também para delimitar o risco e entender em que condições, se alguma, o uso poderia ser seguro — não para chancelar o copo batido no liquidificador.
Resumindo
O mastruz tem tradição real e profunda no Brasil — o batido com leite para tosse e bronquite, o chá para verme, quase sempre dado a criança. E tem, do outro lado, um composto tóxico bem caracterizado, o ascaridol, com mecanismo conhecido de dano ao fígado, ao rim e ao sistema nervoso, casos fatais documentados em crianças pequenas por infusão caseira, e uma potência que varia mais de dez vezes de um pé para outro. Isso torna a distância entre “uso tradicional” e “uso seguro sem orientação” curta demais para este blog publicar uma receita.
Se o que você procura é alívio de tosse ou bronquite leve, o assa-peixe já está aqui, com risco bem menor. Se é verme, o caminho é exame e remédio de farmácia — mais barato e mais seguro que qualquer chá. Se está grávida ou amamentando, esta planta é para evitar, sem meio-termo. E se uma criança já tomou mastruz e apareceu sonolência fora de hora, vômito insistente, diarreia forte ou confusão, isso não espera: procure atendimento médico ou o Centro de Informação Toxicológica agora.
Perguntas frequentes
Mastruz com leite serve para quê?
A tradição popular usa o mastruz batido com leite para tosse, gripe, bronquite e asma, e o chá das folhas como vermífugo — para "botar verme para fora", sobretudo em criança. São os usos que aparecem na literatura sobre plantas medicinais brasileiras. Nenhum dos dois é ensinado aqui, pelos motivos descritos neste artigo.
Mastruz com leite pode dar para criança?
É justamente o uso que mais preocupa. Não existe dado de segurança estabelecido para uso de mastruz em crianças, e há casos documentados de intoxicação grave e fatal em crianças pequenas — inclusive por infusão caseira, não só por óleo essencial. Criança pequena é o grupo de maior risco, não o público natural desta planta.
O leite não deixa o mastruz mais fraco e mais seguro?
Não é isso que o leite faz. Bater com leite muda o gosto e a textura, e diluí um pouco, mas não neutraliza o ascaridol nem estabelece uma quantidade segura. E na prática o batido costuma levar mais folha do que um chá, porque o leite disfarça o amargor — pode acabar entregando mais composto, não menos.
Qual é a diferença entre o chá de mastruz e o óleo essencial de mastruz?
O óleo essencial é a forma concentrada e de longe a mais perigosa: relata-se que uma dose oral única de 5 ml já foi letal em adulto, e o uso humano do óleo foi abandonado por isso. O chá e o batido são bem mais diluídos — mas "mais diluído" não é o mesmo que seguro, e os casos fatais documentados em crianças envolveram infusão caseira, não o óleo puro.
Mastruz é a mesma coisa que erva-de-santa-maria e mentruz?
Sim, são nomes populares da mesma planta (Dysphania ambrosioides, antes chamada Chenopodium ambrosioides) em regiões diferentes do Brasil. Já "mastruço" pode ser outra planta em algumas regiões — vale conferir o nome científico antes de assumir que é a mesma coisa.
Mastruz na gravidez pode?
Não. Esta é uma das plantas com contraindicação mais firme na gestação e na amamentação, e não há dado que sustente uso seguro nesses períodos. A orientação é evitar, e conversar com quem faz o pré-natal antes de qualquer chá.
O que fazer se a criança tomou mastruz demais?
Procure atendimento médico ou ligue para o Centro de Informação Toxicológica (Disque-Intoxicação, 0800 722 6001) imediatamente, contando quanto foi tomado e em quantas vezes, e levando a planta ou uma foto dela. Sonolência fora de hora, vômito persistente, diarreia intensa ou confusão depois de tomar mastruz não é caso para esperar passar em casa.
O mastruz estar na RENISUS significa que é seguro?
Não. A RENISUS é uma lista de prioridade de pesquisa do Ministério da Saúde, não um atestado de segurança. Para uma planta com toxicidade documentada como esta, a prioridade de pesquisa existe também para delimitar o risco — não para validar o uso caseiro sem orientação.
Existe uma planta mais segura para tosse, no lugar do mastruz?
Sim. O assa-peixe, já publicado neste blog, tem tradição de uso justamente para tosse, gripe e bronquite, com um perfil de risco bem menor e sem o histórico de intoxicação grave que o mastruz carrega.
Este conteúdo é informativo e fala sobre alívio e conforto, não sobre cura. Cada caso é único — se a dor persistir ou piorar, procure um profissional de saúde.