Poejo: para que serve, o risco da pulegona e quem não deve tomar

O nariz entope de noite, a tosse volta assim que a cabeça encosta no travesseiro, e alguém da casa põe a chaleira no fogo antes de qualquer outra ideia. Toma um poejo com mel. No Brasil inteiro, do quintal do interior ao saquinho da feira, esse é um dos chás de gripe mais repassados que existem — e a maioria das pessoas o toma achando que é uma hortelãzinha qualquer.
Não é. O poejo é do mesmo gênero da hortelã, tem cheiro parecido e folha parecida, mas carrega um composto que a hortelã não tem em quantidade relevante — e é sobre esse composto que existe a literatura mais robusta da planta. Não a de benefício. A de intoxicação.
Poejo, hortelã e poejo-do-campo: três plantas, um cheiro parecido
O poejo deste artigo é a Mentha pulegium, planta da mesma família e do mesmo gênero da hortelã. É a que a RENISUS lista, a que aparece nos saquinhos de chá com esse nome e a que toda a literatura toxicológica citada aqui descreve.
O teste de campo existe e é simples. A hortelã comum cresce ereta, tem folha maior e lanceolada, e floresce em espiga na ponta do ramo. O poejo é rasteiro — espalha-se pelo chão formando tapete, chega no máximo a 15 a 40 cm —, tem folha bem pequena e peluda, e as flores vêm em bolinhas densas encaixadas ao redor do caule, em anéis, como pequenos pompons lilases distribuídos ao longo da haste e não na ponta dela. Flor em anel no meio do caule e planta que se arrasta: é poejo.
Existe ainda uma terceira planta na confusão, e essa é bem brasileira. No Sul do país, “poejo”, “poejinho” e “poejo-miúdo” também nomeiam a Cunila microcephala, de outro gênero inteiro, comum em campo úmido do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Quem espera que a versão nativa seja a mansa vai se surpreender: o óleo essencial da Cunila microcephala é composto em cerca de 95% por mentofurano — que é exatamente o metabólito hepatotóxico que o fígado fabrica a partir da pulegona do poejo europeu. Ela entrega pronto o que a outra obriga o organismo a produzir.
Nenhuma das três é a versão segura da outra. Este artigo trata da Mentha pulegium, e o que vale para ela não se transfere automaticamente para as outras — nem para melhor, nem para pior.
Para que a tradição usa
O uso central é respiratório. Chá de poejo para resfriado, gripe, nariz entupido e, principalmente, para tosse com catarro — a tradição descreve a planta como expectorante, aquela que “solta” a secreção presa. Com mel, virou xarope caseiro em milhões de cozinhas brasileiras.
O segundo uso é de cólica: tanto a menstrual quanto a de barriga, além de gases e digestão pesada. É o mesmo território que o funcho ocupa na tradição, e as duas plantas costumam aparecer juntas nas receitas de família.
E existe um terceiro uso, muito menos falado em voz alta e presente na literatura há séculos: “descer” menstruação atrasada. Vale nomear, porque é o uso por trás de quase todos os casos graves registrados na literatura médica — e é o assunto da seção seguinte.
O que os estudos sustentam — e o que não sustentam
O que existe. Sobre o efeito, pouco e indireto. O óleo essencial de poejo tem atividade antimicrobiana e espasmolítica demonstrada em laboratório, e óleos do gênero Mentha têm ação secretomotora descrita — o que dá plausibilidade ao uso expectorante da tradição. É estudo de bancada e de animal, não de gente.
O que não existe. Não há ensaio clínico em humanos que sustente o poejo para gripe, resfriado, tosse ou cólica. Nenhum. O uso é tradicional, antigo e amplamente difundido, e continua sendo só isso.
E o que existe em abundância é o oposto do que o leitor espera. A literatura sólida sobre esta planta é a toxicológica, e ela é detalhada até o mecanismo.
O óleo essencial do poejo é composto por 85% a 97% de pulegona. Quando a pulegona chega ao fígado, enzimas do citocromo P450 — as CYP1A2 e CYP2E1 — a convertem em mentofurano, que é oxidado outra vez em metabólitos reativos que se ligam quimicamente às proteínas do próprio fígado. Ao mesmo tempo, o processo consome a glutationa, que é a reserva de defesa antioxidante da célula hepática. Sem glutationa e com proteínas danificadas, a célula morre. O padrão de lesão é a necrose hepática centrolobular — e vale dizer em voz alta o que isso significa: é o mesmo desenho de dano da intoxicação por paracetamol, tanto que o antídoto usado nos dois casos é o mesmo, a N-acetilcisteína, que serve justamente para repor glutationa.
Os casos registrados não são teóricos. Há pelo menos 24 relatos de intoxicação por poejo na literatura médica, com insuficiência hepática e renal, hipoglicemia, distúrbio de coagulação, edema cerebral, convulsão e morte. O caso mais citado é o de uma mulher de 18 anos que ingeriu cerca de 30 mL de óleo essencial para interromper uma gestação: teve náusea, vômito, dor abdominal e confusão em poucas horas, evoluiu para coagulação intravascular disseminada, com enzimas hepáticas em 4.400 e 10.160 U/L, insuficiência renal, e morreu de falência de múltiplos órgãos no sétimo dia — a autópsia confirmou a necrose centrolobular. A literatura registra que uma colher de sopa, cerca de 15 mL, já é suficiente para desmaio, convulsão, coma e lesão hepática aguda.
E há o caso que envolve chá, não óleo. Em 1996, a revista Pediatrics publicou o relato de dois bebês que desenvolveram falência de múltiplos órgãos depois de receberem em casa um chá de menta que continha óleo de poejo, dado como remédio caseiro para cólica. Um deles morreu.
Isso não transforma a xícara de infusão de folha em veneno, e é importante ser preciso aqui: o chá tradicional de folha atravessou gerações sem relatos de dano grave, e o que mata é o óleo essencial concentrado. Mas há um motivo para o “provavelmente tudo bem” não virar “seguro”: a quantidade de pulegona numa xícara varia com a variedade da planta, o cultivo, a parte usada e o tempo de infusão. Onde a substância é vendida em produto, ela tem teto medido — a agência europeia de medicamentos fixou limites de 37,5 mg de pulegona por dia para uso prolongado e 75 mg por dia para uso curto, e recomenda preparações isentas de pulegona sempre que possível. No punhado de folha fervido em casa não há teto nem medição.
A fama do poejo
Três frases circulam sobre esta planta e merecem resposta direta.
“Poejo corta a gripe.” Não corta. Gripe é infecção viral que segue seu curso, e nenhum chá encurta isso. O que a tradição descreve — e o que a plausibilidade de bancada permite imaginar — é alívio de sintoma: vapor quente, sensação de peito aberto, secreção mais fluida. É um conforto real e não é pouca coisa, mas é exatamente ao contrário do que a fama sugere: não é a gripe que cede, é o desconforto que fica mais suportável enquanto ela passa sozinha.
“É só uma hortelãzinha, dá na mesma.” Mesmo gênero, química diferente. A hortelã comum é rica em mentol; o poejo é rico em pulegona. A distância entre os dois compostos é a distância entre a bala de menta e a substância que o fígado converte em metabólito reativo e que consome glutationa. Parecer com hortelã é sobre o cheiro, não sobre o que acontece depois de engolir.
“Poejo desce menstruação atrasada.” Esta é a frase perigosa, e ela merece a correção mais dura do artigo: o efeito é real, mas não é o que as pessoas imaginam que seja. Os casos fatais registrados na literatura são precisamente estes — mulheres que ingeriram óleo de poejo para interromper uma gestação. A dose associada ao efeito abortivo é dose de intoxicação; o aborto, quando ocorre, ocorre junto da falência hepática. Não existe aqui uma planta que “regula o ciclo” e, se a pessoa estiver grávida, faz outra coisa. É um único evento tóxico, com dois nomes conforme o estado de quem toma — o mesmo problema que a artemísia apresenta, e pela mesma razão.
Como se prepara
O preparo tradicional é infusão simples: 1 colher de chá de folha seca de poejo para uma xícara de água quente — água fervida e retirada do fogo, não a folha fervendo na panela —, abafada por 5 minutos e coada antes de beber.
Três limites que valem muito mais que a proporção:
- Folha em infusão, nunca óleo essencial. Nem diluído, nem “três gotinhas no mel”, nem misturado no vaporizador. Todos os casos graves e todas as mortes descritas neste artigo envolvem o óleo, não o chá — e a diferença de concentração entre os dois não é de grau, é de categoria.
- Uso pontual, não rotina. Alguns dias durante um resfriado é uma coisa; xícara forte todo dia por semanas ou meses é outra, e é justamente o cenário em que a exposição acumulada à pulegona deixa de ser desprezível. Não há por que manter poejo como chá diário.
- Não é chá de bebê nem de criança pequena. O uso caseiro para cólica de bebê existe na tradição, mas é exatamente o cenário do caso publicado na Pediatrics — e criança pequena tem menos margem hepática que adulto. Chá para bebê é conversa com pediatra.
Quem não deve tomar
Esta é a seção mais importante da página, e a que a maioria dos sites esconde ou deixa no rodapé.
Grávidas. A contraindicação é absoluta, e não é aviso de rodapé. O poejo é descrito como abortivo na literatura há séculos, e essa reputação não é folclore — é o registro dos casos que terminaram em intoxicação grave e morte. Não existe quantidade caseira de poejo que separe o efeito pretendido do dano ao fígado. Se você está grávida, com suspeita de gravidez, ou com um atraso ainda não esclarecido, esta planta está fora — inclusive o chá.
Quem amamenta. Pela mesma falta de margem: não há dado que estabeleça segurança, e a pulegona é lipossolúvel.
Bebês e crianças pequenas. Pelo caso dos dois bebês descrito acima, e porque a capacidade do fígado de lidar com metabólito reativo é menor quanto menor a criança.
Quem tem doença do fígado. Hepatite, esteatose, cirrose, fígado já comprometido por qualquer motivo — o alvo do dano é justamente o órgão que já está trabalhando com folga reduzida.
Quem tem doença renal. Os relatos de intoxicação descrevem insuficiência renal junto da hepática, e rim comprometido é menos capaz de lidar com a sobrecarga.
Quem bebe álcool com frequência ou usa remédio que pesa no fígado. Aqui é preciso dizer o nível da evidência em voz alta: não existe estudo medindo essa combinação em pessoas. O que existe é o mecanismo compartilhado — o álcool induz a CYP2E1, uma das enzimas que convertem a pulegona em metabólito tóxico, e o paracetamol consome a mesma reserva de glutationa. É inferência de mecanismo, não resultado de ensaio, e é o bastante para justificar cautela em quem usa qualquer um dos dois com regularidade.
E o sinal que não espera: náusea e vômito que não param, dor embaixo das costelas do lado direito, urina escura, olho ou pele amarelados, sonolência ou confusão mental. Esses sinais podem aparecer horas ou até dias depois, quando a pessoa já nem associa mais ao chá — e é exatamente por isso que precisam estar escritos aqui. Convulsão, então, é emergência imediata. O Centro de Informação Toxicológica atende pelo 0800 722 6001, e leve a embalagem ou a planta usada: saber que era poejo muda a conduta médica, porque existe antídoto.
Para quem procura alívio de tosse e gripe com perfil de risco incomparavelmente mais tranquilo, o assa-peixe ocupa o mesmo lugar na tradição brasileira e já está coberto aqui no blog.
Está na RENISUS?
Sim. O poejo (Mentha pulegium) é uma das 71 espécies da RENISUS, a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS — a lista que o Ministério da Saúde publicou elegendo prioridades de estudo e possível oferta na rede pública. Ele ocupa o item 40.
Um detalhe da própria lista vale como confirmação do que este artigo separou lá em cima: a hortelã entra em outra linha, como Mentha spp. — M. crispa, M. piperita ou M. villosa. A relação oficial trata poejo e hortelã como entradas distintas, porque são coisas distintas.
E vale entender o que a credencial significa, porque muito site a usa torta: estar na RENISUS não é atestado de eficácia comprovada nem de segurança irrestrita. É a declaração de que a planta tem uso relevante o bastante no país para merecer pesquisa e cadeia produtiva organizada. Numa planta com toxicidade tão bem descrita quanto esta, parte do que se precisa pesquisar é exatamente onde ficam os limites — o que é outra maneira de dizer que eles ainda não estão definidos.
Resumindo
Poejo é um dos chás de gripe mais tradicionais do Brasil, usado para tosse com catarro, nariz entupido e cólica. A tradição é real e antiga; o ensaio clínico que a confirme não existe. O que existe, em detalhe, é a toxicologia: o óleo essencial é quase todo pulegona, que o fígado converte em metabólito reativo, consumindo a glutationa e produzindo necrose centrolobular — o mesmo padrão da intoxicação por paracetamol, com o mesmo antídoto.
A infusão da folha, em uso pontual, é uma situação diferente da do óleo essencial — e é essa distinção que sustenta o preparo descrito acima. Mas óleo essencial de poejo não se ingere em nenhuma quantidade, e na gravidez a planta está fora inteira, porque a fama de abortivo não é lenda: é a descrição do que aconteceu nos casos que terminaram em morte.
Se você está grávida, amamentando, tem problema no fígado ou nos rins, ou pensou em dar o chá a uma criança pequena, converse antes com quem cuida de você. Nada aqui substitui a orientação médica — e se alguém passou mal depois de tomar, o 0800 722 6001 atende, agora.
Perguntas frequentes
Poejo para que serve?
A tradição brasileira usa a infusão da folha principalmente para resfriado, gripe, tosse com catarro e nariz entupido, e também para cólica menstrual e desconforto digestivo. São usos de tradição, documentados na etnobotânica — não há ensaio clínico em humanos que os confirme.
Poejo e hortelã são a mesma planta?
Não. São do mesmo gênero (Mentha) e têm cheiro parecido, mas a química principal é diferente: a hortelã comum é rica em mentol, e o poejo é rico em pulegona, um composto com toxicidade hepática conhecida. O poejo também tem porte rasteiro e flores em bolinhas ao redor do caule, enquanto a hortelã cresce ereta e floresce em espiga na ponta do ramo.
O que é pulegona e por que ela é perigosa?
É o composto principal do óleo essencial do poejo, chegando a 85% a 97% dele. No fígado, enzimas do citocromo P450 transformam a pulegona em mentofurano e depois em metabólitos reativos que se ligam às proteínas do próprio fígado e consomem a glutationa, a defesa antioxidante da célula. O resultado, em dose suficiente, é necrose hepática centrolobular — o mesmo padrão de lesão da intoxicação por paracetamol, e o motivo pelo qual o antídoto usado é o mesmo, a N-acetilcisteína.
Chá de poejo pode na gravidez?
Não. Esta é a contraindicação mais firme deste artigo e ela é absoluta. O poejo é descrito na literatura como abortivo, e a história dos casos fatais registrados é exatamente essa: mulheres que tomaram o óleo essencial para interromper uma gestação. Não é folclore, e não existe dose caseira que separe o efeito pretendido da intoxicação.
Chá de poejo faz mal para o fígado?
O perigo documentado está no óleo essencial concentrado, não na infusão da folha — o chá tradicional foi usado por gerações sem relatos de dano grave. Mas a quantidade de pulegona numa xícara varia com a variedade da planta, o cultivo e o tempo de infusão, e por isso as agências reguladoras europeias fixaram teto para a substância e recomendam preparações isentas de pulegona. Uso pontual é diferente de chá forte todo dia por semanas.
Pode dar chá de poejo para bebê ou criança pequena?
Não. Em 1996 a revista Pediatrics publicou o caso de dois bebês que desenvolveram falência de múltiplos órgãos depois de receberem em casa um chá de menta que continha óleo de poejo, usado como remédio caseiro — um deles morreu. Chá caseiro para criança pequena é conversa com pediatra, não receita repassada.
Quanto de óleo essencial de poejo é perigoso?
Muito pouco. A literatura toxicológica registra que mesmo uma colher de sopa, cerca de 15 mL, pode causar desmaio, convulsão, coma, lesão hepática aguda e insuficiência renal. Um caso clássico envolveu cerca de 30 mL e terminou em morte por falência de múltiplos órgãos no sétimo dia. Óleo essencial de poejo não se ingere, em nenhuma quantidade.
Poejo estar na RENISUS significa que é seguro?
Não. A RENISUS é uma lista de prioridade de pesquisa do Ministério da Saúde, não um selo de segurança. O poejo (Mentha pulegium) está lá porque tem uso tradicional relevante o bastante no Brasil para merecer estudo organizado — e, numa planta com toxicidade tão bem descrita, parte do que se precisa estudar é justamente onde ficam os limites.
O que fazer se alguém passou mal depois de tomar poejo?
Náusea e vômito que não passam, dor embaixo das costelas do lado direito, urina escura, olho ou pele amarelados, sonolência ou confusão são sinais de que o fígado foi atingido, e podem aparecer horas ou dias depois. Isso é atendimento médico, não caso de esperar melhorar. O Centro de Informação Toxicológica atende no 0800 722 6001, e vale levar a embalagem ou a planta usada.
Este conteúdo é informativo e fala sobre alívio e conforto, não sobre cura. Cada caso é único — se a dor persistir ou piorar, procure um profissional de saúde.