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Salgueiro

Casca de salgueiro branco: para que serve, como preparar e quem não deve tomar

Por Fabiano Carvalho
Atualizado em 29 de julho de 2026 · 10 min de leitura

Salgueiro

A coluna trava ao levantar da cadeira, o joelho reclama na escada, e a dor já dura semanas. Alguém comenta que existe uma casca de árvore usada para dor desde antes de existir farmácia — que a aspirina, na verdade, saiu de lá. Você vai buscar no Google, digita “salgueiro”, e a tela devolve escola de samba, jogo de futebol e notícia de uma cidade em Pernambuco.

A planta existe, a história é verdadeira, e o nome é o pior possível para quem quer pesquisar.

Antes de tudo: a confusão aqui não é botânica, é de nome próprio

Com a maioria das ervas, o problema é ter duas plantas diferentes com o mesmo apelido. Com o salgueiro, o problema é outro: “Salgueiro” é também uma cidade do sertão de Pernambuco e o nome da escola de samba do Rio de Janeiro. As duas dominam a busca, e quem digita o nome puro não chega à árvore.

O termo que funciona é casca de salgueiro branco ou o nome científico, Salix alba. É essa a planta da tradição medicinal e a que está na lista oficial do Ministério da Saúde.

Vale separar mais uma coisa dentro do próprio gênero. O salgueiro-chorão dos jardins e das beiras de lago, aquele de ramos caindo até a água, é geralmente Salix babylonica — é ornamental. As espécies com uso medicinal descrito e teor de salicina padronizado em monografias são outras: Salix alba, Salix purpurea e Salix daphnoides. Salgueiro de jardim e casca medicinal comprada em farmácia de manipulação não são a mesma matéria-prima, e não existe teste caseiro para distinguir casca picada de uma espécie da de outra — o critério aqui é procedência com nome científico no rótulo, não aparência.

Para que a tradição usa

O uso tradicional do salgueiro é antigo o bastante para atravessar culturas. A decocção da casca — casca fervida, não folha em infusão — aparece na medicina grega antiga para dor e febre, e é registrada na literatura científica europeia desde 1763, quando um clérigo inglês, Edward Stone, escreveu à Royal Society descrevendo o uso da casca em quadros febris.

Os usos populares que chegaram até hoje são quatro, e todos giram em torno do mesmo eixo:

  • dor lombar e dor nas costas — o mais forte e o mais estudado;
  • dor articular, principalmente em joelho e quadril de quem tem desgaste;
  • febre;
  • dor de cabeça.

É a planta com a linha mais curta e mais direta entre uso popular e medicamento de farmácia deste blog inteiro. Em 1828, o farmacêutico alemão Johann Buchner isolou da casca um composto amargo e batizou de salicina — de Salix. Uma década depois, químicos italianos converteram a salicina em ácido salicílico. Em 1897, na Bayer, esse ácido foi acetilado e virou ácido acetilsalicílico: a aspirina. Detalhe curioso: o nome “aspirina” não veio do salgueiro, e sim de Spiraea, outro gênero de planta que também contém salicilato.

O que os estudos sustentam — e o que não sustentam

O que existe. Aqui a evidência é melhor que na média das ervas, e é específica: dor lombar crônica. Ensaios clínicos com extrato padronizado de casca de salgueiro, comparando 120 mg e 240 mg de salicina por dia contra placebo, mostraram redução da dor, com o resultado melhor na dose maior. Revisões sistemáticas de fitoterápicos para dor nas costas classificam essa evidência como de qualidade moderada — pouco para uma bula, muito para um chá.

Existe também um achado interessante sobre como funciona. O efeito não se explica só pelo salicilato: a quantidade de ácido salicílico gerada pela dose estudada é baixa demais para justificar sozinha o resultado, e a casca traz junto polifenóis e flavonoides que parecem contribuir. Ou seja, a planta não é simplesmente “aspirina fraca” — é uma mistura com comportamento próprio.

O que não existe. Em osteoartrite e artrite reumatoide, os resultados são mistos: há ensaio bem conduzido em que o extrato não se mostrou superior ao placebo. A dor articular está entre os usos tradicionais mais repetidos, e é justamente onde a evidência é mais fraca — o contrário do que a fama sugere.

E não existe nada que sustente o uso da casca como protetor cardiovascular. Voltaremos a isso, porque é o ponto onde a confusão vira risco de verdade.

A fama do salgueiro

Três frases que circulam merecem resposta direta.

“Chá de salgueiro é aspirina natural.” É a mais próxima da verdade e ainda assim está errada no detalhe que importa. A casca tem salicina, um pró-fármaco: a flora intestinal a converte em saligenina, e o fígado a oxida em ácido salicílico. A aspirina é ácido acetil salicílico — a mesma base com um grupo acetil pendurado, colocado em laboratório. Esse grupo não é enfeite: é ele que faz a aspirina agir de um jeito que a planta não age. Mesma família, funções diferentes.

“Como é natural, não faz mal ao estômago.” Meia verdade. Estudos mostram que a casca irrita menos a mucosa gástrica que a aspirina, porque a salicina passa pelo estômago sem estar na forma ativa e sem o grupo acetil que agride a parede. Mas “menos” não é “nada”, e continua sendo salicilato circulando no sangue — quem tem úlcera ativa segue fora.

“Se serve para dor, serve para afinar o sangue no lugar da aspirina.” Não, e essa é a crença mais perigosa da página. A aspirina em dose baixa protege quem já teve infarto porque bloqueia uma enzima da plaqueta de forma irreversível — e isso depende exatamente da acetilação, que a salicina não tem. Medições comparativas mostram a casca reduzindo a agregação plaquetária de forma modesta, muito longe do efeito do comprimido. Quem larga o AAS prescrito e passa a tomar chá fica com risco de sangramento suficiente para atrapalhar e proteção insuficiente para servir. É o pior dos dois mundos.

Como se prepara

O preparo tradicional é decocção, não infusão: casca seca e picada, cerca de 1 colher de chá (2 a 3 g) para uma xícara de água, fervida por 5 minutos e deixada em repouso por mais 10, coada antes de beber. O sabor é francamente amargo e adstringente — casca de árvore com tanino não é chá agradável, e adoçar não tira a amargura.

Três limites que valem mais que a proporção:

  • Compre com nome científico no rótulo. Casca picada é casca picada — não há como olhar e saber a espécie, e o teor de salicina varia muito entre espécies e entre lotes. Sem Salix alba (ou purpurea/daphnoides) escrito, você não sabe o que está fervendo.
  • Chá caseiro não tem dose padronizada, e aqui isso pesa mais que o normal. Os estudos usaram extrato com salicina medida em miligramas. Uma xícara de decocção caseira pode ter uma fração disso ou bem mais, dependendo da casca — é impossível replicar em casa a dose que foi testada, e é por isso que este texto não vira receita de tratamento.
  • Não é bebida de rotina diária por tempo indeterminado. Salicilato tomado todo dia, por semanas, em alguém que já usa outros remédios, é uma soma que ninguém está monitorando.

Quem não deve tomar

Esta é a seção mais importante da página, e a que a maioria dos sites esconde ou deixa no rodapé. Com o salgueiro ela é mais séria que o habitual, porque a planta carrega os riscos da aspirina junto com a fama de ser inofensiva por ser natural.

Criança e adolescente, principalmente com febre de virose. É o ponto central. A monografia da Organização Mundial da Saúde desaconselha o uso da casca em menores de 12 anos, e boa parte das referências estende a restrição até os 18. O motivo é a síndrome de Reye: um quadro raro, súbito e grave de lesão do fígado e do cérebro, associado ao uso de salicilato em criança com infecção viral — gripe, catapora, quadros febris comuns. Foi por causa dele que a aspirina saiu da febre infantil décadas atrás. A salicina da planta é metabolizada por caminho diferente do da aspirina, e o risco é considerado teórico, sem série de casos que o confirme — mas ninguém propõe descobrir na prática. Criança com febre viral não toma chá de casca de salgueiro.

Quem tem alergia a aspirina ou a anti-inflamatório. Reação a salicilato é reação a salicilato, venha de comprimido ou de casca. Merece atenção especial quem tem asma que piora com anti-inflamatório — a chamada doença respiratória exacerbada por AINE, em que a exposição desencadeia broncoespasmo e crise, às vezes grave.

Quem usa anticoagulante ou antiplaquetário. Varfarina, clopidogrel, heparina, o próprio AAS. O efeito antiplaquetário da casca é leve, mas soma, e a soma aparece como sangramento — gengiva, nariz, hematoma sem pancada, fezes escuras. Vale a mesma cautela na semana anterior a cirurgia ou extração de dente.

Quem tem úlcera péptica ou gastrite em atividade. Mesmo com a mucosa sendo menos agredida que pela aspirina, salicilato em estômago já lesionado é risco desnecessário.

Quem tem doença renal. Salicilato é eliminado pelos rins e reduz o fluxo sanguíneo renal em quem já está com a função comprometida. Quem tem doença renal crônica, ou já usa anti-inflamatório com frequência, não deve somar mais um.

Gestantes e lactantes. Salicilato atravessa a placenta e é eliminado lentamente pelo recém-nascido. Faltam dados de segurança para recomendar uso medicinal na gestação e na amamentação.

E o sinal para parar, específico desta planta e que quase ninguém conhece: zumbido no ouvido. Tinido, apito, sensação de ouvido tampado — é o sinal clássico de salicilato em excesso no organismo, e aparece antes de coisa pior. Junto dele, valem como alerta sangramento que não para, fezes escuras, chiado no peito ou falta de ar. Nada disso é “o chá fazendo efeito”: é motivo para parar e procurar atendimento.

Está na RENISUS?

Sim. O salgueiro-branco (Salix alba) é uma das 71 espécies da RENISUS, a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS, publicada pelo Ministério da Saúde. A espécie inclusive tem monografia própria elaborada no âmbito do ministério.

Vale entender o que essa credencial significa, porque muito site a usa torta: estar na RENISUS não é atestado de eficácia comprovada nem de segurança irrestrita. É a declaração de que a planta tem uso relevante o bastante no país para merecer pesquisa e cadeia produtiva organizada. É uma boa credencial — de interesse público, não de resultado clínico.

No caso do salgueiro, a distinção é especialmente útil: a planta está na lista e tem contraindicação de peso. As duas coisas convivem, e é normal que convivam.

Resumindo

Casca de salgueiro branco é a origem histórica da aspirina e a erva com a evidência mais concreta deste blog para um alvo estreito: dor lombar crônica, com extrato padronizado. Para dor articular, o resultado é misto. Prepare por decocção, com casca de procedência identificada, e sabendo que a xícara de casa não reproduz a dose dos estudos.

E o cuidado que importa mais que todos os outros: se é para uma criança ou adolescente com febre, se você tem alergia a aspirina, asma sensível a anti-inflamatório, úlcera, doença renal, ou toma anticoagulante, esta não é a sua planta — e quem usa AAS por indicação do cardiologista não troca o comprimido pelo chá em hipótese nenhuma. Nada aqui substitui a orientação médica; converse com quem cuida de você antes de somar mais um salicilato ao que já está em curso.

Perguntas frequentes

Casca de salgueiro branco para que serve?

A tradição usa a decocção da casca para dor, febre, dor de cabeça e dor articular — sobretudo dor lombar. É a planta de onde foi isolada a salicina, o composto que deu origem ao ácido acetilsalicílico, a aspirina.

Chá de salgueiro é a mesma coisa que aspirina?

Não. A casca tem salicina, que o corpo converte em ácido salicílico — parente próximo, mas não igual. A aspirina é ácido acetilsalicílico, uma molécula acetilada em laboratório, e é justamente essa acetilação que ela tem e a planta não tem. A diferença muda o efeito sobre as plaquetas e sobre o estômago.

Criança pode tomar chá de casca de salgueiro?

Não. A monografia da Organização Mundial da Saúde desaconselha o uso em menores de 12 anos, e muitas referências estendem isso até os 18. O motivo é a mesma lógica que tirou a aspirina da febre infantil: risco de síndrome de Reye, um quadro raro e grave de lesão de fígado e cérebro associado a salicilato em criança com infecção viral.

Quem toma anticoagulante pode tomar chá de salgueiro?

Não sem falar com o médico. A casca tem efeito antiplaquetário leve — menor que o da aspirina, mas real — e somado a varfarina, clopidogrel, heparina ou ao próprio AAS aumenta o risco de sangramento.

Quem tem alergia a aspirina pode usar salgueiro?

Não. Quem já teve reação a aspirina ou a outro anti-inflamatório, e principalmente quem tem asma que piora com AINE, pode ter a mesma reação com o salicilato da planta, incluindo chiado no peito e falta de ar.

Chá de salgueiro faz mal para o estômago?

Menos que a aspirina, porque a salicina é absorvida como pró-fármaco e não age acetilada sobre a mucosa. Mas continua sendo salicilato: quem tem úlcera ativa ou gastrite em crise não deve usar.

Serve para afinar o sangue no lugar da aspirina?

Não, e essa é a confusão mais arriscada sobre a planta. A aspirina em dose baixa protege o coração porque bloqueia a plaqueta de forma irreversível, coisa que depende da acetilação — a salicina não faz isso. Trocar o comprimido pelo chá deixa a pessoa desprotegida achando que está protegida.

Por que é tão difícil pesquisar salgueiro no Google?

Porque "Salgueiro" também é o nome de uma cidade em Pernambuco e de uma escola de samba do Rio de Janeiro. A busca pelo nome puro devolve futebol, carnaval e notícia de cidade — para achar a planta, é preciso digitar "casca de salgueiro branco" ou o nome científico Salix alba.

Salgueiro está na RENISUS?

Sim, Salix alba é uma das 71 espécies da Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS. Isso significa interesse público em pesquisar e organizar a cadeia produtiva da planta — não é atestado de eficácia comprovada nem de segurança irrestrita.

Este conteúdo é informativo e fala sobre alívio e conforto, não sobre cura. Cada caso é único — se a dor persistir ou piorar, procure um profissional de saúde.