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Unha-de-gato

Unha-de-gato: para que serve, como preparar e quem não deve tomar

Por Fabiano Carvalho
Atualizado em 29 de julho de 2026 · 12 min de leitura

Unha-de-gato

A dor nas juntas já virou rotina, e você aprendeu a se levantar da cadeira apoiando a mão no braço. Aí alguém da família chega com um pote de cápsulas da farmácia de manipulação e a frase que fecha qualquer discussão: “toma unha-de-gato, é anti-inflamatório natural, não faz mal a ninguém”.

A primeira metade da frase tem lastro. A segunda é justamente onde essa planta é diferente de quase todas as outras deste blog: a unha-de-gato tem a lista mais longa de gente que não deveria tomar.

Duas espécies com o mesmo nome — e um detalhe dentro da própria espécie

Unha-de-gato é o nome popular de um cipó lenhoso amazônico que sobe pelas árvores usando espinhos curvos, parecidos com garras de gato. Não é árvore, apesar de muita gente procurar assim: é uma trepadeira que pode passar de 20 metros pendurada num tronco alheio.

No Brasil e no Peru, duas espécies do mesmo gênero circulam com esse nome: a Uncaria tomentosa e a Uncaria guianensis. Elas não são intercambiáveis. A tomentosa é a que concentra os alcaloides oxindólicos — em levantamentos comparativos, o teor total desses compostos chegou a ser dezenas de vezes maior que o da guianensis — e é ela a espécie dos estudos, dos fitoterápicos registrados e da lista oficial brasileira. A guianensis também mostrou atividade anti-inflamatória e antioxidante em estudo, mas seu perfil químico é outro, com o flavonoide canferitrina servindo de marcador para separar as duas em laboratório.

Existe teste visual de campo? Para quem vê a planta viva, sim: “tomentosa” quer dizer aveludada, e é a face inferior da folha que entrega — felpuda na tomentosa, lisa na guianensis. Só que quase ninguém compra folha. O que chega ao consumidor é casca picada, pó ou cápsula — e nesse formato não existe teste caseiro nenhum. Casca moída de uma Uncaria é igual à da outra.

Então o critério muda de lugar: em vez de teste, procedência. O rótulo tem que trazer o nome científico. Sem isso, não dá para saber o que está no pote.

E há um detalhe a mais, que quase nenhum site conta. A própria Uncaria tomentosa tem dois quimiotipos — duas versões químicas da mesma espécie. Um é rico em alcaloides oxindólicos pentacíclicos, que são os que atuam sobre a resposta imune celular; o outro é rico nos tetracíclicos, que agem sobre o sistema nervoso central e, segundo os estudos, chegam a antagonizar o efeito dos pentacíclicos. Os ensaios clínicos foram feitos com extrato padronizado do quimiotipo pentacíclico. Casca a granel, sem padronização, não diz de qual quimiotipo veio — e pode não ter nada a ver com o que foi testado.

Para que a tradição usa

A unha-de-gato é uma das plantas com registro etnomédico mais antigo da Amazônia peruana. Povos como os Asháninka, Aguaruna, Cashibo, Conibo e Shipibo usam a casca do cipó, em decocção, há muito tempo — e o povo Asháninka, no Peru central, é a referência histórica mais citada quando se fala dessa planta.

Os usos tradicionais mais repetidos são três. O primeiro, e mais forte, é para processos inflamatórios e dor nas juntas — artrite, reumatismo, dor de coluna. O segundo é digestivo, para gastrite e úlcera. O terceiro é o mais vago e o mais explorado comercialmente: a ideia de “fortalecer” o organismo, que a linguagem de internet traduziu como aumentar a imunidade.

Há ainda um uso tradicional que raramente aparece nos rótulos e que importa muito: em dose alta, a planta é usada como contraceptivo por vários desses povos. Guarde essa informação — ela volta lá embaixo.

O que os estudos sustentam — e o que não sustentam

O que existe. A frente mais sólida é a articular. Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo acompanhou 40 pessoas com artrite reumatoide ativa por 52 semanas, usando extrato do quimiotipo pentacíclico somado ao remédio que elas já tomavam (sulfassalazina ou hidroxicloroquina). Em 24 semanas, o grupo do extrato teve redução maior no número de articulações doloridas do que o do placebo — 53,2% contra 24,1%. Outro ensaio, com 45 homens com osteoartrite de joelho, mostrou queda maior na dor com a planta do que com placebo em 4 semanas, mas sem diferença na dor noturna nem no inchaço.

Repare em duas coisas nesses estudos, porque elas mudam a leitura: eram poucos participantes, e o extrato entrou junto com a medicação de base, nunca no lugar dela. É evidência de coadjuvante, com supervisão médica, não de troca.

Existe também o efeito imunomodulador, medido em laboratório e atribuído principalmente aos alcaloides oxindólicos pentacíclicos, que atuam sobre a resposta imune celular. Isso é real — e é exatamente por isso que a seção de contraindicação desta página é a mais longa do blog.

O que não existe. Nenhum ensaio clínico sustenta a planta como agente contra o câncer. O estudo de fase 2 feito em pacientes com tumores sólidos avançados não encontrou resposta do tumor pelos critérios de avaliação usados; o desfecho que se mediu foi qualidade de vida. Os resultados que circulam como se fossem prova vêm de células em placa de laboratório, e citotoxicidade em placa não é tratamento em gente — muita substância mata célula tumoral no vidro e não faz nada, ou faz mal, no corpo.

Também não existe estudo que sustente “aumentar a imunidade” no sentido genérico que a fama vende. O que existe é modulação medida — e modulação tem duas direções.

Traduzindo para a vida real: para dor articular há evidência pequena, como apoio ao tratamento médico. Para câncer e para “subir a imunidade”, não há.

A fama de unha-de-gato

Três frases que circulam por aí merecem resposta direta.

“Unha-de-gato fortalece a imunidade, então serve para todo mundo.” É exatamente ao contrário do que a fama sugere. O efeito sobre o sistema imune é o motivo pelo qual uma parte grande da população não deve tomar. Quem tem lúpus, artrite reumatoide, esclerose múltipla ou vive de imunossupressor não precisa de estímulo imune — precisa do oposto.

“Unha-de-gato ajuda no câncer.” É a crença mais difundida e a mais irresponsável de repetir. Não há ensaio clínico que a sustente, e há um risco concreto no caminho: a planta interfere com a CYP3A4, a enzima do fígado que processa boa parte dos medicamentos — inclusive quimioterápicos. Em laboratório ela aparece ora inibindo, ora induzindo essa enzima, e já houve relato de caso com aumento da concentração de antirretrovirais em quem usava a planta. Remédio em concentração diferente da prevista é problema nas duas direções.

“É natural, então dá para tomar junto com o remédio sem avisar ninguém.” Natural não quer dizer inerte. Esta planta soma efeito com anticoagulante, com anti-inflamatório, com remédio de pressão, com diurético e com imunossupressor. É a definição de uma erva que precisa ser declarada ao médico, não escondida dele.

Como se prepara

A parte usada é a casca do cipó, e isso muda o método. Folha e flor se preparam em infusão — água quente por cima, abafada. Casca lenhosa não entrega nada em infusão: precisa de decocção, ou seja, ferver junto com a água.

O preparo tradicional é aproximadamente 1 colher de sopa de casca picada para 1 litro de água, levada ao fogo e fervida por 10 a 15 minutos, abafada depois de desligar e coada antes de beber. O chá sai amargo e adstringente — é assim mesmo.

Três limites que valem mais que a proporção:

  • Cápsula e chá não são a mesma coisa. O extrato padronizado dos estudos é concentrado e vem com quimiotipo definido; a casca a granel do mercado não. Comparar as duas como se fossem intercambiáveis é o erro mais comum com esta planta.
  • O rótulo tem que dizer Uncaria tomentosa. Sem nome científico, não há como saber se é a espécie dos estudos, e nenhum teste caseiro resolve isso na casca seca.
  • Antes de começar, faça a lista dos seus remédios. Não é frase de rodapé: com esta erva especificamente, a pergunta “o que mais você toma?” pesa mais que qualquer detalhe de preparo.

Quem não deve tomar

Esta é a seção mais importante da página, e a que a maioria dos sites esconde ou deixa no rodapé. Aqui ela é também a mais longa, e o motivo é um só: o mesmo mecanismo que sustenta a fama da planta é o que cria a maior parte dos impedimentos.

Quem tem doença autoimune. Lúpus, artrite reumatoide, esclerose múltipla, psoríase, tireoidite de Hashimoto, doença inflamatória intestinal. O mecanismo é direto: na doença autoimune o sistema imune já está atacando o próprio corpo, e os alcaloides pentacíclicos da unha-de-gato estimulam justamente a resposta imune celular — empurram na direção errada. Aqui mora a contradição mais desconfortável desta página, e vale dizê-la em voz alta: existe ensaio clínico da planta em artrite reumatoide, que é uma doença autoimune. Só que aquele estudo usou extrato padronizado, em dose definida, somado à medicação de base e com acompanhamento médico ao longo de um ano. Isso não é a mesma situação de quem compra pó a granel e começa a tomar por conta. As referências de segurança seguem listando doença autoimune como contraindicação, e a decisão de contornar isso é do reumatologista, não da internet.

Quem fez transplante ou usa imunossupressor. Ciclosporina, tacrolimo, azatioprina, micofenolato, sirolimo, corticoide em dose imunossupressora. Esses remédios existem para segurar o sistema imune e impedir que ele rejeite o órgão novo. Uma planta que estimula a resposta imune trabalha contra o objetivo do remédio, e o desfecho de uma imunossupressão insuficiente é rejeição. Por isso as referências contraindicam o uso antes e depois de transplante de órgão, de medula ou de enxerto de pele.

Grávidas, quem está tentando engravidar e lactantes. Aquele uso tradicional contraceptivo em dose alta não é folclore solto: extratos da planta têm atividade contraceptiva descrita em estudo. Não há dado de segurança que justifique o risco na gestação, e falta informação sobre passagem para o leite.

Quem toma anticoagulante ou antiagregante. Varfarina, heparina, AAS, clopidogrel — e também anti-inflamatórios comuns. A unha-de-gato tem compostos associados a maior risco de sangramento, e esse efeito soma ao do remédio. Quem vai passar por cirurgia ou procedimento dentário deve suspender e avisar.

Quem toma remédio para pressão. Há efeito hipotensor descrito para a planta. Somado ao anti-hipertensivo, pode derrubar a pressão mais do que o previsto — tontura ao levantar, vista escurecendo. O efeito diurético leve entra na mesma conta para quem já usa diurético, com risco de desequilíbrio de sais no sangue.

Quem está em tratamento contra o câncer ou usa medicação contínua de janela estreita. Antirretrovirais, imunossupressores, anticonvulsivantes, quimioterápicos: todos dependem de uma concentração no sangue que a interferência na CYP3A4 pode deslocar. Isso não se resolve por conta própria — leve o pote à consulta.

E o sinal para parar, valendo para qualquer pessoa: pele ou olhos amarelados, urina escura e dor na parte alta direita da barriga — há relatos de lesão hepática associada ao uso, raros, mas registrados. Some a isso sangramento ou hematoma sem explicação, tontura forte, e piora dos sintomas de uma doença autoimune já conhecida (juntas mais doloridas, manchas na pele, febre). Nada disso é “a planta fazendo efeito” — é motivo para interromper e procurar atendimento.

Está na RENISUS?

Sim. A Uncaria tomentosa é uma das espécies da RENISUS, a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS — a lista com que o Ministério da Saúde elegeu prioridades de pesquisa e de possível oferta na rede pública. É a tomentosa que a lista nomeia, mais um motivo para o nome científico no rótulo importar.

Vale entender o que essa credencial significa, porque muito site a usa torta: estar na RENISUS não é atestado de eficácia comprovada nem de segurança irrestrita. É a declaração de que a planta tem uso relevante o bastante no país para merecer pesquisa e cadeia produtiva organizada. É uma boa credencial — de interesse público, não de resultado clínico.

No caso desta planta, aliás, a distância entre as duas coisas é o assunto da página inteira: interesse oficial existe, evidência clínica é pequena e concentrada na dor articular, e a lista de contraindicações é longa.

Resumindo

A unha-de-gato não é o anti-inflamatório natural universal que a fama vende. É um cipó amazônico com evidência pequena e específica em dor articular, sempre como apoio à medicação e não no lugar dela, e sem nada que sustente as promessas maiores que circulam em torno de imunidade e câncer. Se for usar, use a casca em decocção, com o nome Uncaria tomentosa impresso no rótulo.

E o cuidado que importa mais que todos os outros: se você tem doença autoimune, fez transplante, está grávida ou tentando engravidar, usa anticoagulante, remédio de pressão, imunossupressor ou está em tratamento contra o câncer, esta planta não é para você tomar por conta própria — leve o assunto a quem cuida de você antes de abrir o pote. Nada aqui substitui a orientação médica, e nesta erva a conversa com o médico não é formalidade: é a parte principal.

Perguntas frequentes

Unha-de-gato serve para quê?

A tradição amazônica usa a casca do cipó em decocção para dor nas juntas e processos inflamatórios, para desconforto de estômago e como "fortalecedor" do organismo. É no terreno da dor articular que existem os poucos ensaios clínicos da planta, sempre somados ao remédio de base, nunca no lugar dele.

Unha-de-gato é uma árvore?

Não. É um cipó lenhoso que sobe pelas árvores da Amazônia e pode passar de 20 metros, se apoiando em espinhos curvos que lembram garras de gato — daí o nome. Quem procura por "árvore" costuma estar vendo a planta já enrolada num tronco alto, o que dá essa impressão.

Quem não pode tomar unha-de-gato?

Quem tem doença autoimune (lúpus, artrite reumatoide, esclerose múltipla, psoríase, tireoidite), quem fez transplante ou usa imunossupressor, grávidas e lactantes, quem toma anticoagulante ou remédio para pressão, e quem está em tratamento contra o câncer sem ter falado com o oncologista. É a lista mais longa deste blog, e o motivo está explicado no artigo.

Unha-de-gato aumenta a imunidade?

A planta tem efeito imunomodulador descrito em laboratório — ela mexe na resposta imune. Mas "mexer" não é o mesmo que "melhorar para todo mundo": é justamente esse mecanismo que faz dela uma contraindicação para quem tem doença autoimune ou vive de medicação imunossupressora.

Unha-de-gato pode quem tem lúpus?

Não é indicada. No lúpus, como em qualquer doença autoimune, o sistema imune já ataca o próprio corpo — e uma planta que estimula a resposta imune celular empurra na direção errada. As referências de segurança listam doença autoimune como contraindicação.

Unha-de-gato serve para câncer?

Não há ensaio clínico que sustente isso. Um estudo de fase 2 em pacientes com tumores sólidos avançados não encontrou resposta do tumor pelos critérios de avaliação usados — o que se mediu foi qualidade de vida. Citotoxicidade em célula de laboratório não é tratamento em gente, e há ainda o risco de a planta interferir na metabolização da quimioterapia.

Unha-de-gato pode na gravidez?

Não. Vários povos amazônicos usam a planta em dose alta como contraceptivo, e extratos têm atividade contraceptiva descrita em estudo. É contraindicada na gestação, em quem está tentando engravidar e durante a amamentação.

Unha-de-gato faz mal para o fígado?

Existem relatos de lesão hepática associada ao uso, embora sejam raros e nem sempre com o nexo bem estabelecido. Pele ou olhos amarelados, urina escura e dor na parte alta direita da barriga durante o uso são motivo para parar e procurar atendimento.

Unha-de-gato pode tomar todo dia?

Uso diário e prolongado por conta própria não tem embasamento e concentra justamente os riscos de interação com medicação contínua. Se a ideia é uso regular, essa é uma conversa para ter com médico, e não uma decisão de balcão.

Este conteúdo é informativo e fala sobre alívio e conforto, não sobre cura. Cada caso é único — se a dor persistir ou piorar, procure um profissional de saúde.